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A travessia do atlântico. Parte 02

Aeroporto Lisboa. A história de um imigrante brasileiro baiano na Europa

Aeroporto Lisboa. A história de um imigrante brasileiro baiano na Europa

A viagem está muito agradável, passaremos toda a noite atravessando o atlântico, 8 horas de voo, chegaremos em Lisboa por volta das 7 da manhã. Observo aquelas pessoas em minha volta, todas aparentando um ar feliz e ansioso. Deverá haver nesse meio algumas pessoas que tem o mesmo propósito que eu? Pessoas que estivesse buscando a sua realização profissional e financeira em outro continente? Não tinha a menor dúvida disso, pela maneira de se comportar, pela sua forma acanhada de ser, era muito fácil detectar essas pessoas. Procurar trabalhar e viver fora do seu país, naquela altura era muito comum já que havia uma grande imigração do Brasil para o exterior derivado a crise económica. O interessante é que nessas situações, ninguém sabe nada de ninguém, e nem imagina quem possa ser a pessoa ao seu lado, e passamos 8 horas a viajar juntos, jantamos juntos, e dormimos lado a lado. Fica uma sombra de curiosidade que muitas vezes se desmancha com um simples puxar de conversa, que acaba por quebrar o gelo e tornar a viagem um pouco mais agradável. Algumas delas poderiam está indo curtir umas ferias na Europa, e outras poderiam está imigrando, embora notasse sempre uma necessidade de esconder esses detalhes para poder manter uma certa aparência turística. Foi o que senti ao puxar conversa com um rapaz que embora alegasse está indo passear na Europa, mais pelo palavreado e a maneira artificial que se comportava tentando dar um ar de importante, mim deixou certo que estava diante de um imigrante. Depois de servirem o jantar estava previsto um filme que já não me recordo qual foi, depois do filme fecharam o serviço apagaram grande parte das luzes do avião para que as pessoas pudessem descansar.

Avião. A história de um imigrante brasileiro baiano na Europa

Avião. A história de um imigrante brasileiro baiano na Europa

A noite estava linda, eu ficava observando da janela aquele céu estrelado, tão brilhante acompanhado do som desagradável e constante das turbinas do avião, o ar frio e seco do ar-condicionado criava um ambiente artificial e aconchegante. Tentei ainda chatear um pouco a aeromoça pedindo mais uma dose de whisky para ver se funcionaria como sonífero, mais não dei sorte, educadamente disse-me que estava suspenso os serviços. Não consigo dormir bem em uma situações como essas, estou habituado a uma caminha quente e confortável, embora havia pessoas que dormiam feito uma pedra, principalmente o carioca muito “fino” que roncava feito um serrote.

Sei que há pessoas que adoram viajar de avião, se fosse por 1 hora 2 no máximo eu até que concordaria, mais permanecer 8 horas dentro de um avião é extremamente desagradável para mim, não gosto de mim sentir preso e limitado a um espaço e sem levar em conta o facto de estarmos atravessando o oceano atlântico, sempre fazendo pairar a hipótese de acabarmos como comida para peixe.

Finalmente ouve-se a voz do comissario de voo, informando que dentro de minuto estaremos aterrissando no aeroporto Portela em Lisboa. Não mim recordo da temperatura anunciada, mais o que sei é que essa temperatura mim surpreendeu. Apanhei a minha bagagem de mão alinhei na fila para deixar o avião e mim dirigi a porta de saída. Ao ser aberta a porta senti de imediato uma brisa fria misturada com diversos aromas de perfumes utilizados pelos passageiros que se encontravam a minha frente.

 

Ao passar pela porta do avião, senti um frio gelado mim abraçar por completo, e pensei, deve ser bem complicado viver em um ambiente assim, mais vou mim acostumar. Entrei no pequeno ónibus que nos iria conduzir até a porta de desembarque, observava aquele movimento frenético de vai e vem de carros de bagagens , funcionários do aeroporto fazendo o seu trabalho e um agregado de aeromoças e comissários de vou puxando as suas pequenas malas de rodinhas em direção a um carro especial para os conduzir a zona de desembarque. Der repente escuto a larga porta do ónibus fechar-se e o motorista engatar a 1º macha pondo o ónibus em movimento, de repente procuro mim segurar a uma barra vertical comum nos ónibus para as pessoas se equilibrarem, e fui obrigado a larga de imediato. Aquela barra estava simplesmente gelada, fiquei apalpando-a até conseguir habituar aquela temperatura, e pensei, tô ferrado. Chegamos a zona de desembarque passei pelo sector de identificação de passaporte mim dirigi a saída a qual encontrava-se um típico português mais parecido com o John wayne que mim fez uma pergunta da qual não entendi nada. Pedi desculpas e que ele repetisse, a pergunta era, ” É a 1º vez que vem a Portugal” uma frase simples mais dita por um português naquela altura, parecia “alemão”.

 

Avião chegada. Brasileiro imigrante na Europa

Avião chegada. Brasileiro imigrante na Europa

Não estava habituado a ouvir pronuncia portuguesa, em Salvador conheci alguns mais já estavam a muito tempo no Brasil falavam evidentemente com o seu típico sotaque, mais não era tão embolado. Já os portugueses nos percebem bem, pelo facto de haver em Portugal sendo transmitido na televisão muitas novelas brasileiras, portanto fica fácil para eles. Disse que sim, e ele com um ar serio e compenetrado, apontou para uma mesa a esquerda que era para fazer o controle sobre as bagagens. Quando chega os voos da América latina, tem uma recepção bem especial, como se trata de países pobres e com grandes produções e consumo de drogas, são selecionados do grupo de passageiros uma certa parte para ter as suas bagagens vistoriadas em busca de drogas, armas ou qualquer coisa que altere a segurança do país. Fantástico, eu devia ter o aspecto típico de um traficante, mais estava eu estava adorando aquilo tudo. Evidentemente como não havia nada de ilegal, fui autorizado a ir embora. Saindo dessa área a primeira coisa que fiz sem pestanejar, foi correr em direcção aos sanitários, não é que tivesse as necessidades físicas que vocês estão imaginando, mais sim para abrir a minha mala e vestir quase tudo que tinha, para ver se esquentava um pouco, porque eu já mim sentia um picolé ambulante.

Depois de sair do sanitário mim dirigi a porta de saída, eram muitos carros chegando outros saindo, um entra e sai de passageiros e bagagens, ou seja, um típico aeroporto de uma grande cidade. Ok! encostei o carrinho que transportava as minhas bagagens a um canto, sentei-me nas bagagens, e ai sim, mim perguntei. Então Anildo o que é que você faz agora? Depois de reflectir um pouco cheguei a conclusão. Me dirigi a um taxista e perguntei como se chamava o centro de cidade e gostaria que mim conduzisse até lá. Imediatamente ele respondeu. “Rossio”. Curioso é que hoje em dia acho tão simples o nome e a pronuncia e naquele dia parecia tão complicado. Finalmente fui conduzido ao centro da cidade. Ao chegar no Rossio, fiquei maravilhado com a beleza da praça, o movimento frenético das pessoas de um lado para o outro, os pombos voando para o telhado dos prédios, uma fumaça esquisita que saia de uma espécie de caixa a qual uma senhora retirava algumas coisas de dentro, acabei por descobrir que eram as famosas castanhas muito típicas em Portugal e que são vendidas quentes e acabadas por fazer para esquentar um pouco as pessoas, o cheiro era muito agradável.

Rossio, Portugal. A história de um imigrante brasileiro.

Rossio, Portugal. A história de um imigrante brasileiro.

Depois de circular pela as ruas do Rossio, vi a uns 15 metros de distancia em uma rua sem saída uma pensão, Pensão Central que foi onde mim dirigi para saber o preço da diária. Ao chegar a portaria um senhor gordo e bigodudo, ou seja, tipicamente português mim recebeu de forma séria e desinteressada. Os Lisboetas não costumam ser muito simpáticos, ou seja, quem vai a Portugal e conhece só Lisboa, fica com uma imagem nada agradável do povo português pelo fato dos lisboetas estarem sempre chateados com alguma coisa mais se vocês vão ao norte é uma diferença enorme, lembro-me quando cheguei a primeira vez na linda cidade do Porto, perguntei a um empregado de mesa do restaurante se estávamos mesmo em Portugal. Uma coisa que todos os brasileiros notam quando chegam em Portugal é que as pessoas quando se encontram na rua e perguntam uma a outra se está tudo bem, a resposta é sempre, ” mais ou menos” ou “vai-se andando” ou então ” Há , como Deus quer  é que nunca dizem, tá tudo óptimo  ou tá tudo bem, ou fantástico, e como costumamos dizer no Brasil, “Tá óptimo  se melhorar estraga” Para eles as coisas nunca estão bem, quando estou na rua reparo que as pessoas depois de se cumprimentarem com o mais ou menos, quando começam a conversar o assunto é, ou problemas de saúde  ou falta de dinheiro, problemas familiares ou seja, eles só veem a vida mais pelo lado negativo, é impressionante. A velha maneira de ser do brasileiro sorridente e brincalhão podem está passando fome, “mais tá tudo beleza” não são bem entendidos por eles, mais depois fui conhecendo e cheguei a conclusão que é a maneira natural deles, mais no fundo acabava por se revela uma pessoa alegre e amiga, o problema é que são desconfiados e até não conhecer bem a pessoa eles mantenhe sempre uma distancia.

Mais notei que o Brasil era muito bem publicitado aqui. Na altura que cheguei era Carnaval no Brasil e a televisão portuguesa transmitia em directo o Carnaval ,e eles adoravam ver as brasileira com aqueles biquínis dançando no sambodromo. Quando eu parava para ver algumas imagens do Carnaval alguns hospedes da pensão aproveitavam para fazer perguntas a respeito do Brasil.

Depois de hospedado fui dar um passeio pelas ruas e ver se encontrava alguns artistas para que eu pudesse mim entrosar. Ao sair da pensão depois de andar uns 400 metros entrei em uma rua chamada, rua do Carmo, foi quando avistei um rapaz sentado em uma pequena cadeira com uma placa sobre os joelhos desenhando algo, quando mim aproximei descobri que se tratava de um artista pintando uma aguarela, do seu lado direito encontrava-se uma placa medindo aproximadamente 1 metro por 2 de largura onde ele colava alguns de seus trabalhos já realizados. Foi a 1º vez na minha vida que vi uma pessoa pintando aquarelas, não conhecia essa técnica a não ser pelas musicas do Toquinho e Vinicius de Morais. A Aquarela não é tão difundida no Brasil, geralmente os artistas brasileiros preferem mais a pintura a óleo, exatamente a técnica que desenvolvi. Aquela pintura parecia tão simples, tão suave, embora o artista não tinha assim tanto talento, avaliando o trabalho em termos artísticos era muito fraco, o que mim deslumbrava era a técnica a aquarela tão simples e aparentemente fácil de trabalhar.

 

Castelo-São-Jorge. A vida de um imigrante baiano na Europa

Castelo-São-Jorge. A vida de um imigrante baiano na Europa

O nome dele era Paulo, era gordo baixinho e tinha um ar meio “Onde estou!!”, mais era um cara simpático, perguntei para ele se vivia só daquele trabalho e se era possível ganhar algum dinheiro. Ele mim disse que sim, que preferia está ali pintando as suas aquarelas do que está trabalhando para um patrão. Perguntei se era necessário alguma licença para está trabalhando ali, e ele respondeu com um ar despreocupado, que não tinha licença e também não era necessário, só de vez em quando é que a policia resolvia incomodar, mais nem sempre. Resumindo precisava sim.

Continuei o meu passeio e entrei em uma loja de materiais de pintura, fiquei maravilhado, era uma loja grande que havia de tudo com relação as artes plásticas, pesquisei e comprei algumas aquarelas para dar inicio a essa nova técnica.

Durante o meu passeio observava a forma de vida daquela gente bem vestidas e apressadas,, as mulheres usavam botas altas, casacos de pele, cachecol no pescoço, luvas, e toda aquela parafernália necessária para se fugir do frio. Me recordo que chegava altura que o frio era tanto, que ao passar por uma pessoa, o vento criando pelo movimento dos corpos passando um pelo outro, era o suficiente para criar um vento gelado que penetrava na roupa e chegava aos ossos. Agora imaginem quando estávamos para atravessar a rua e passava um ónibus, o vento gelado que criava mim dava a impressão que eu ia congelar e que não iria dar mais nem um paço. O baianinho acostumado a 35 a 45 graus de temperatura, tava mesmo ferrado.

Os preços das coisa eram sempre altos, nem se quer me passava pela cabeça comprar alguma coisa que não fosse extremamente necessária, encontrava casacos fantásticos que mim faziam balançar, mais esperava primeiro ganhar os primeiros escudos para poder comprar algumas coisas.

Havia uma rua paralela a rua Augusta, chamava-se rua da prata, onde se encontrava muitas tavernas e restaurantes, havia uma taverna que eu gostava de frequentar ia as vezes ia lá tomar uma cervejinha e ficava observando os portugueses que lá frequentavam. Eram gordos, falavam alto e não paravam de beber vinho. Uma taça de vinho em Portugal chegava a ser mais barato do que uma garrafa de água  um hábito que é derivado ao frio, hábito esse que acabei por adquirir também. Eles bebiam demais, nessas tavernas que eram frequentadas por uma grande maioria das pessoas que trabalhavam na rua Augusta, vendedores ambulantes e funcionários de lojas, era um ambiente engraçado, o curioso é que diante de de tanto vinho, risadas exageradamente altas derivado ao vinho, nunca se presenciava nenhum sinal de briga ou violência, bem diferente do Brasil, que geralmente nessas situações algumas pessoas tem a tendência de lembrar do que não devia, como por exemplo, “Você andou se metendo com a minha mulher?” pronto, tá feito!

Porto. A historia de um imigrante brasileiro na Europa

Porto. A historia de um imigrante brasileiro na Europa

Retornei a rua Augusta para ver se encontrava o Paulo e convida-lo para tomar um copo, o que era muito comum, quando dois portugueses se encontram a primeira coisa a dizer é: Vamos tomar um copo! Atenção, temos que levar em conta o ambiente em que estou inserido, ou seja, povão. Embora nas classes dita elevadas também é mesma coisa. Chegando a Rua Augusta la estava o Paulo sentado pintando as suas aquarelas e conversando com um outro rapaz que acabei por conhecer. Era um brasileiro também artista que trabalhava na rua vendendo as suas obras, era uma peça simplesmente do outro mundo. O nome dele era Roberto, era também baiano e já morava em Portugal a mais de 10 anos, um tipo extremamente conversador e contador de historias, quando digo contador de historias, quero dizer com isso que era um grande mentiroso, mais era uma boa pessoa, ele tinha uma necessidade mórbida de contar mentiras, contar vantagens, mais só fui descobrir isso passado algum tempo, evidente a mentira tem pernas curtas e com o tempo acaba por se revelar.

.Mais com todas as manias nos dávamos muito bem, o fato de sermos da mesma região nos tornava como irmão assim dizia ele, e com o Roberto foram muitas idas a taverna tomar um copo. Eu não estava habituado a beber tanto, no Brasil a nossa bebidinha é uma cervejinha não dá para ficar doidão, mais em Portugal era vinho, muito vinho e eu tomava cuidado para não perder o rumo.

 

Me recordo nesse dia a noite o Roberto mim convidou para ir tomar um copo em uma taverna que um amigo dele trabalhava, ok, vamos lá disse eu, depois de ter conhecido vários colegas dele na rua, todos verdadeiro alcoólatras e viciados, incrível eu nunca tinha conhecido, nem mim relacionado com pessoas que consumia drogas pesadas e em Portugal passei a conhece-los e testemunhar as loucura que a droga era capa de fazer, usavam drogas drogas pesadas, a famosa heroína. No Brasil eu já tinha ouvido falar mais como disse nunca tinha presenciado o consumo dela e os efeitos. Uma coisa boa que o Roberto tinha é que não usava drogas o negócio dele era só a bebida. Esse amigo dele que trabalhava na taverna que ele queria que eu conhecesse mim surpreendeu pelo fato de ser uma pessoa normal, ou seja não consumia drogas, era trabalhador e demonstrava ser uma pessoa inteligente, e também era brasileiro, de Goiánia.

 

Na taverna e como sempre alguns copos e depois, fomos almoçar numa taverna baratinha em que a comida era muito boa, pelo menos para mim como era novidade a gastronomia portuguesa, tudo tornava-se interessante. Me impressionava a quantidade de batas fritas que eles comem, associadas ao vinho ao pão e a sobremesa, era um festival de carboidratos que explica porque são tão fortes.

 

Já no fim da noite eles mim levaram para uma atividade a nível “cultural”, ou seja, conhecer um famoso bar chamado Pirata, esse bar era especializado em duas bebidas as quais os donos não revelavam de como era feita, mais era muito boa, uma das bebidas era o” pirata” o mesmo nome da casa e a outra perna de pau. Chegando ao bar encontramos um outro amigo dele chamava-se tô. O tô era conhecido em toda rua Augusta pelo fato de ter ganho um prémio do guinness book, ela trabalhava também na rua fazendo de “estátua” Ou seja, pintava o rosto todo de branco para dar um ar de estátua, vestia uma roupa extravagante e subia em um pequeno banco, antes colocava um aparelho se som tocando musicas do Pink Floyd o que dava um ar meio transcendental, meio pirado. Ele ganhou um prémio do guines por consegui bater o recorde de imobilidade, ficou varias horas sem se mexer fazendo-se de estátua, já não mim recordo quantas horas, mais foi o suficiente para bater o recorde mundial, era conhecido como ” O homem estátua”. Durante essa noite ouvia varias estórias do Tô e do Roberto, desde conflitos com skins reds na Alemanha, como centenas de viagem pela Europa trabalhando como estátua, depois de passado algum tempo acabei por chegar também a conclusão que o Tô era também um grande Loroteiro, ou seja, aquela necessidade mórbida de inventar histórias das quais eles saiam sempre como herói, era muito comum naquele meio, mais era curtida aquela atmosfera. O que sei é que chegou a hora de voltar para a pensão e eu já estava completamente tonto por “causa do perna de pau” aquela bebidinha mim apanhou de jeito, então mim despedi deles e parti em direção a pensão, a minha sorte é que era perto porque no estado em que eu estava, se fosse muito longe acabava ficando no caminho.

Cascais. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Cascais. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Quando cheguei a pensão, ainda bem que o velho não mim viu passar porque se visse ia ficar coma ideia de que eu era um bêbado incorrigível  O que sei é que tombei na cama e dormi feito uma pedra, apaguei com toda a roupa que usava quando cheguei da rua, acho que tinha até esquecido o frio.Ok, mais amanhã será um novo dia e vou começar o meu trabalho, coisa que eu estava ansioso por fazer.

 

Acordei pela manhã com o frio que mim gelava os pés, pelo visto o tal do “perna de pau” a bebida secreta do português que não revelava a ninguém de que aquilo era feito, era realmente boa. Acordei inteirinho, ou seja, sem aquelas típicas dores de cabeça resultado de uma noite de abusos. Fui escovar os dentes e lavar o rosto e mesmo com os usuais aquecedores para a água, ou seja “esquentadores” como chamam lá, a agua no inicio assustava com a sua temperatura, tomar banho pela manhã para mim não mim atreveria, seria uma batalha que não estava afim de travar naquele momento, portanto só seria a noite.

 

Fui para a rua curioso de como seria o resultado em termos de vendas, e pensei vou colocar o meu material ao lado do Paulo, assim teria alguém para conversar e quebraria um pouco a minha timidez pelo fato de nunca ter feito isso antes, em Salvador trabalhava e zonas fechadas, em galerias e shopping center, e aqui em Portugal estava indo trabalhar na rua o que no Brasil chamamos vulgarmente de “Camelôs”. Mais não mim incomodava muito essa ideia porque o ambiente era completamente diferente, com exceção dos drogados artistas que ia para rua com o único propósito de fazer dinheiro para manter o consumo.

 

Havia um outro artista chamado “John” que chegava todos os dias pela manhã cantando e dançando e no inicio eu pensava, olha ai, finalmente um português sorridente e animado, demonstrando felicidade e bom humor. Depois é que fui descobrir que era viciado na heroína e quando chegava todas as manhãs tão contente era porque já tinha recebido o incentivo da heroína. Era muito fácil para esse pessoal ganhar dinheiro na rua vendendo as suas pinturas, as pessoas compravam e era possível viver ganhando um bom dinheiro simplesmente desta maneira, ou seja, sendo um “Camelô”. Portanto o pessoal da droga que sabiam pintar alguma coisa convincente, ganhavam dinheiro para manter o vicio e levar uma vida tranquila, embora a vida de um drogado não seja nada tranquila quanto mais ganhavam, mais drogas consumiam.

 

Roma, Vaticano. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Roma, Vaticano. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Ok, nesse dia cheguei na rua, coloquei as minhas telas ao lado do Paulo e mim pus a exercer a minha nova modalidade de vendas. As minhas telas eram grandes e consequentemente o preço também  para vocês terem uma ideia o preço que eu pedia por uma tela, era uma media de 100 a 150 euros, isso equivalia no Brasil a 1 salário mínimo e meio, por se tratar de uma técnica realmente cara o óleo sobre tela, e eu não queria baixar o preço para não desvalorizar o trabalho. Estabeleci o valor em euros, mais vale apena salientar que na altura era o escudo. As pessoas adoraram as pinturas, os drogados ficaram doidos e acabei por ganhar o respeito deles como um artista de verdade, já que até antes de verem os meus trabalhos acreditavam que eu era apenas mais um querendo se armar em artista. As pessoas perguntavam o preço constantemente mais achavam caro, muitos diziam que esse tipo de trabalho não era para a rua, que eu deveria procurar algumas galerias de arte. Realmente acabei de chegar também a essa conclusão  de que para se vender bem na rua tinha que ser algo barato e simples.

O Roberto tinha uma espécie de pintura interessante, era um estilo meio abstracto feito sobre papel brilhante e que fazia uns efeitos estilizados e quanto ao preço, eram baratos, ele vendia cada pintura sobre o papel a uma média de 20 a 30 euros. Era uma técnica em que em menos de uma hora ele conseguia fazer um quadro, portanto podia jogar com os preços e estava sempre ganhando. Para vocês terão uma ideia a hora de trabalho de um garçon ou empregado de mesa como dizem a qui, era de mais ou menos entre 3.50 a 4.00 euros por dia, ou seja, o Roberto ganhava mais por hora do que um empregado normal e não tinha que trabalhar feito escravo 8 a 12 horas por dia, tanto ele quantos os outros.

 

Resultado de tudo isso é que no fim do dia eu não tinha vendido nenhum trabalho, como havia dito derivado ao alto preço embora tenha aparecido muitas pessoas interessadas. Mais resolvi seguir o conselho daquelas pessoas que diziam que aquele tipo de trabalho não era para rua e sim para galerias, então resolvi ir a procura de galerias de arte para apresentar o meu trabalho e tentar entrar no circuito artístico português.

Destas pessoas que conheci na rua e elogiaram o meu trabalho, ouve um rapaz que chegou a mim falar sobre algumas galerias que conhecia e que acreditava que se eu fosse lá provavelmente venderia alguns trabalhos. Então foi o que fiz. Numa manhã peguei todas as minhas telas e o meu book e mim dirigi a uma destas galerias que funcionava para o lado do Saldanha em Lisboa. Eram galeria de luxo habituadas a trabalhar com artistas nominados, era muita ingenuidade minha achar que chegaria assim em Portugal e em muito pouco tempo estaria entrando no circuito europeu de arte e iria trabalhar com uma destas galerias. Mais na altura não pensei assim, fui directo a galeria contactar um dos donos. Sim um dos dono já que essa galeria pertencia a duas pessoas.

 

Ao chegar apresentei-me disse que era artista plástico e tinha alguns trabalhos que gostaria que eles vissem, neste momento só havia um dos donos. Um rapaz aparentando uns 30 anos, sério e não dando muita credibilidade aos meus trabalhos antes de os verem. Sim antes de os verem, porque depois que viu ficou encantado e ligou par o sócio que estava a alguns quarteirões. Então com uma boa parte das minhas telas espalhadas no chão da galeria ficava esse rapaz analisando-as. Vocês devem imaginar com é que eu transportaria tantas telas que no total eram 22 das melhores que havia. Essa telas não possuíam os aros de madeira, ou seja, o suporte que vem por trás para mante-las esticada. Eu tirei todas do suporte porque caso contrário seria impossível transporta-la. Tinha todas enroladas em forma de tubos que facilitava mais o transporte.

Finalmente chegou o sócio do rapaz, também se tratava de um homem na casa dos 35 a 40 anos. Olhou para todas aquelas tela, analisou cada uma de uma forma bem profissional. A maioria das telas eram pinturas no estilo surrealista, estilo esse que eu gostava muito de pintar, usava como tema as mulheres, dando um ar surrealista a atmosfera. O rapaz olhou todo o material elogiou e disse-me que infelizmente não estava interessado naqueles trabalhos por se tratar de uma técnica que não condizia com o estilo da galeria, que se eu pintasse alguma tela dentro do estilo da galeria ele comprava. Ora, eu com todas aquelas telas deixar de lado para satisfazer aquele cara, pintando um estilo que para mim não mim dizia nada, nem pensar. Eu não estava disposto a iniciar o meu trabalho pintado um estilo que eu achava ridículo, só pelo fato daquela galeria trabalhar só com aquele estilo. Não, agradeci ao rapaz e fui embora, tentei mais umas 2 ou 3 naquela área e a resposta foi semelhante. Ou queria que eu mudasse de estilo, ou o dono da loja mal queria mim receber por não se tratar de um artista famoso, ou tinha que marcar um horário pelo fato do dono não se encontrar na loja.

 

Estoril, Portugal. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Estoril, Portugal. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Bem desisti desse local e fui fazer uma outra tentativa no Casino Estoril, na linha de Cascais, ou seja muito atrevimento como tinha dito antes, tentar entrar no mundo das artes em Portugal assim de forma tão fácil. Me dirigi ao Casino, ao chegar a porta da galeria fui imediatamente interpelado pelo segurança que ao ver aquele rapaz novo com aquelas coisas enroladas debaixo dos braços e com pinta de imigrante perguntou o que eu desejava. Eu sabia o nome do proprietário da loja que uma das pessoas que tinha conversado na rua comigo mim falou, portanto o segurança mandou eu entrar e foi chamar o proprietário  Fiquei um bom tempo a espera, aproveitei para conhecer os trabalhos exposto na galeria. Era uma galeria luxuosa, muito espaçosa e que também possuía um estilo de pintura que não tinha nada a ver comigo. Passado uma meia hora chega o proprietário  um senhor aparentando ter os seu 45 a 50 anos, gordo com um ar muito sério que mim olhou de cima para baixo e que mim fez sentir de imediato que as coisas não iriam sair bem. levava comigo também o meu álbum de fotografia, era um algum grande tamanho A3 e que continha muitas fotografias de trabalhos e das exposições realizadas em Salvador. Ele passou uma vista muito rápida no álbum, mais depois de ver as fotos e os diplomas e prémio que lá constava ficou um pouco mais simpático.

O resultado foi que deixei o Estoril sem vender nada e sem convite nenhum para exposições. Então resolvi no outro dia voltar para a rua e procurar pintar outra coisa bem mais comercial e que pudesse vender por um preço bem barato. A zona do Estoril era muito bonita, fui até lá de Comboio, ou seja de trem, comboio é a a expressão portuguesa para trem. Foi a primeira vez que tinha andado de trem, já que no Brasil não é tão comum transporte ferroviário e o pouco que conhecia no Brasil desse tipo de transporte, não tinha nada a ver com os trens usado na Europa. Eram trens confortáveis e muito agradável viajar nele. A viagem era em parte toda feita a beira mar, uma visão muito bonita, passei pela área de Belém onde fica a torre e o Mosteiro, era um espetáculo.

A noite pintei algumas aquarelas, não tinha pratica nenhuma naquilo, não conhecia a técnica e tratava as aquarelas como se fosse tinta óleo. A aquarela tem que ser trabalhada usando bastante agua e pouca tinta para que fique com um efeito bem aguado criando primeiro manchas para depois na 2º fase procurar finalizar com tons mais escuros e brilhantes, estou a mim referir a pinturas de paisagens embora no geral é assim que se deve pintar com aquarela. O tema que utilizava para pintar era o utilizado pelo Paulo e pela maioria dos artista em Lisboa que se tratava da “Alfama”. A Alfama é um bairro antigo de Lisboa que serve de inspiração para os artistas, pintores, músicos e poetas. É um bairro interessante, muitas casas antigas, tascas para todo o lado, ouvia-se fado onde quer que se entre e no alto da Alfama se encontra o Castelo se São Jorge, formidável, a vista do Castelo para Lisboa é magnifica, pelo fato de ser a parte mais alta de Lisboa, evidentemente naquela época para lutar contra aos invasores Mouros, construíam os castelos nas partes mais altas para poder ter uma visão maior da cidade e naquela época também da floresta e poder detectar a aproximação do inimigo. O cheiro de sardinha assada toma conta das ruas da Alfama, é tradição deles comer sardinhas, beber vinho e usar o pão como guardanapo e depois comer. Na Alfama tínhamos a impressão que voltávamos no tempo, aquelas pessoa com um ar e aspecto de que saíram de um filme de há 200 anos atrás, mais era mágico tudo aquilo. Bem voltando para a pintura em aquarela, o Roberto e o John eram os únicos que não pintavam aquarelas, ambos tinha a mesma técnica que era aquele trabalho abstracto pintado com tinta acrílica sobre papel. Conheci também um português chamado Alberto Martins, o cara na aquarela era realmente bom, fazia trabalhos formidáveis e o mais impressionante é que pintava aquarelas em papeis do tamanho de um cartão postal, nesse pequeno espaço pintava umas ruas da Alfama, também alguns barcos típicos do sul de Portugal, o Algarve, que era aterra dele e é a principal zona turística de Portugal, vale a pena conhecer. E ele vendia as suas aquarelas com uma facilidade fantástica, ganhava muito dinheiro, o Alberto Martins era um exemplo de artista equilibrado, não fumava não bebia apenas pintava as suas pequenas aquarelas que as vendia por uma média de 5 a 8 euros as tamanho postal e as outras no tamanho de uma folha A4 já era bem mais caro chegava a pedir entre 20 a 40 euros. Mais também tinha uma pancada doida, de 15 em 15 minutos de conversa, de repente corria para o café em busca da casa de banho, devia ter um problema qualquer na próstata, mais dizia sempre que era normal, era sinal de boa saúde. E eu balançava a cabeça positivamente para não o contrariar.

 

Palacio da Pena, Sintra. A historia de um imigrante brasileiro na Europa.

Palacio da Pena, Sintra. A historia de um imigrante brasileiro na Europa.

 

Como havia dito no inicio, o preço da hora de trabalho em Portugal numa profissão simples como, garçon, empregado em uma loja, funcionários de empresas era uma média de 3.50 euros a hora, trabalhando pelo menos 8 horas por dia ou seja, 28 euros por dia. Esse era um excelente salário na época. Fazíamos esse valor facilmente por dia trabalhando apenas algumas horas. O Alberto Martins com as sua aquarelas em tamanho postal as vezes não ficava nem 1 hora na rua vendendo, em pouco tempo vendia todas as suas aquarelas.

Havia uma rua em Lisboa em que era uma verdadeira mina, se conseguíssemos ficar pelo menos uma hora trabalhando sem ser importunado pela policia ganhávamos o dia rapidamente, havia um forte movimento de pessoas, pelo fato de haver muitos bancos e lojas, só bastava encostar uma placa de 1 metro por 2 em um canto com algumas aquarelas exposta e logo paravam pessoas e compravam tudo.

Voltando a falar nesse Alberto, era uma figura interessante, o fato de fugir por completo do típico português que gosta de se embebedar, o Alberto não, também não usava droga, dávamos muito bem pelo fato dele saber que eu também não alinhava nessas coisa. Mais depois acabei por saber que o fato dele ter esse estilo comportadozinho foi devido a um problema de saúde que teve que quase o levou para o andar de cima, ou seja, quase morreu, a partir dai passou a adoptar esse estilo de vida, era vegetariano e cheguei a ir com ele algumas vezes almoçar nesses restaurantes especializados em comida vegetariana, era interessante, era só para fugir a rotina, como se em um mundo desse que eu estava inserido existisse rotina.

 

Bem como havia dito antes, preparei as aquarelinhas a noite e pela manhã fui estrear na rua do Carmo, não fui a rua Augusta pelo fato de não ter experiência nenhuma de venda na rua e também de nunca ter sido abordado por policias, aquilo para mim fazia confusão, portanto fui para onde se encontrava o Paulo o Roberto e o John.

Lisboa vista do Tejo. A história de um brasileiro imigrante na Europa.

Lisboa vista do Tejo. A história de um brasileiro imigrante na Europa.

Ao chegar naquela manhã, o frio era grande e as pessoas corriam de um lado para outro cheias de pressa e totalmente concentradas em suas vidas. Iria ser a primeira vez na minha vida que iria trabalhar dessa maneira, vendendo na rua como “Camelô” estava um pouco sem graça mais ao olhar as pessoas em volta era tudo tão natural, ninguém estava preocupado em observar a vida dos outros e ai fiquei mais tranquilo e fui perdendo a vergonha. Abri um plástico no chão assim como fazia o Roberto e coloquei as minhas aquarelas, passado pouco tempo vendi uma, fiquei mesmo feliz com aquilo e fui mim animando mais.

 

No final do dia, sendo a primeira vez, sem conhecer a técnica da aquarela e fazendo um trabalho que precisava muito melhorar, e eu sabia disso e sabia que era questão de tempo muito pouco tempo, tinha conseguido ganhar cerca de 30 euros, um dia de trabalho extremamente bem pago para um trabalhador normal e tudo isso trabalhando para mim mesmo, sentado em uma rua fantástica vendo as pessoas passarem e estando o tempo todo na conversa, aprendendo coisas, e procurando conhecer esse sistema, essa pessoas de cultura tão diferente, foi magnifico, aquilo para mim foi como um “Seja bem vindo” eu adorei Portugal ao chegar, e agora descubro que posso ficar e ganhar o meu dinheiro trabalhando para mim mesmo e fazendo o que gosto, mesmo que seja na rua como Camelô, eu estava realizado e feliz e via em minha frente não uma luz no fim do túnel, mais via o túnel todo iluminado.

 

Nesse dia depois do trabalho, ou seja seja depois do comercio fechar fui almoçar em bom restaurante sozinho, queria apenas a minha companhia, não mim recordo o que comi mais era algo bem português certamente, pedi um bom vinho e fiquei fazendo uma retrospectiva de tudo que havia passado e cheguei a conclusão que estava em um excelente ritmo, e se eu procurasse manter passado mais uns meses iria ao Brasil visitar a minha família. Carregava uma pochet presa a cintura onde ficava os meus documentos e dinheiro e dentro dela estava a minha passagem. Passagem de volta para o Brasil que eu pensava em caso as coisas corressem mal, iria usa-la e voltar para a minha família. Simplesmente, rasguei-a, simplesmente cortei-a em vários pedaços e disse para mim mesmo, você não vai voltar ao Brasil dentro de 2 meses, você vai ficar e fazer aqui a sua vida. Foi magnifico, pensei que fosse ser tudo mais difícil ao chegar a Portugal, e agora vejo que sou capaz de mim manter sozinho, ganhar o meu dinheiro, pagar as minhas contas e curtir, curtir bastante, por que a Europa está a minha espera, e ai vou eu!

Divulguem. Obrigado.