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A morte do Patrick. PARTE 13

Braga. Portugal. A história de um imigrante brasileiro na Europa

Braga. Portugal. A história de um imigrante brasileiro na Europa

A morte do Patricy. PARTE 13

 

 

Cheguei em Portugal pela estrada IP5 e fui directo para Braga, estava afim de rever os amigos que lá tinha deixado. Contactei com o Patricy que estava em Lisboa e o chamei para vir a Braga, que era um excelente mercado para as aquarelas dele e eu ficaria centrado só nos retratos portanto não haveria concorrência.

Patricy chegou a Braga falei com a senhora responsável pelo apartamento em que eu estava morando e ela permitiu que o Patricy fosse morar lá com agente. O quarto era enorme e tinha duas camas portanto o Patricy podia ocupar uma das camas. Nesse dia fomos almoçar em um bom restaurante que havia na cidade, era caro mais a comida era excelente, evidentemente tinha que compensar o preço.

Durante a tarde fui com o patricy para a rua principal onde eu trabalhava mostrar para ele onde seria o seu novo local de trabalho. Ele estava muito feliz e radiante, tinha ganho um bom dinheiro em Lisboa fazendo uma colecção de aquarelas para uma galeria em Cascais que havia encomendado. Nesse dia não fizemos nada, apenas curtir a cidade, e a noite fomos a uma simpática casa nocturna recentemente aberta chamada Barberini, um ambiente agradável o qual tinha uma mesa de bilhar e passamos a noite toda jogando sinuca.

 

 

No outro dia pela manhã chegou a altura de encarar o trabalho, apanhamos o material e nos dirigimos para a rua direita onde começaríamos o trabalho. Montei o meu cavalete e comecei a desenhar um retrato resultado de uma encomenda que tinha sido feita no dia anterior.

 

O Patricy colocou o material dele a uns 10 metros de onde eu estava e começou a pintar uma aquarela. Naquele dia ele estava muito feliz com a vida que levava, tínhamos tido um dia bem animado na noite anterior, ele sempre com aquela velha mania de gastar dinheiro com luxos e coisas finas, era uma característica muito marcante no Patricy, eu achava que o fato de ter nascido em França, na cidade de Paris e aquele comportamento ser característico na mentalidade daquele povo fazer com que o luxo e a boa etiqueta fizesse parte das suas vidas.

Passado algumas horas eu estava quase finalizando o retrato que estava fazendo quando ouvi o Patricy mim chamar, virei e respondi, só um minuto já estou quase acabando o desenho, e ele voltou a chamar por mim novamente, virei-me e fui em direcção a ele. Ao chegar perto do Patricy ele estava muito estranho, cheguei a pensar que durante o tempo que estive desenhando ele teria  ido ao café abusar um pouco do vinho e que a aparência que ele carregava era resultado disto. Mais depois que ele mim pediu para tentar levanta-lo e coloca-lo de pé senti que a coisa afinal não era derivado ao vinho, se passava alguma coisa errada e o Patricy não estava nada bem.

 

 

Todo o lado esquerdo do Patricy estava praticamente paralisado, ele já não conseguia exprimir uma frase em condições e de imediato cheguei a conclusão que deveria chamar uma ambulância. E foi o que fiz, apanhei o telemóvel e liguei de imediato para o 112, uma linha de urgência. Disse para ele ficar calmo que a ambulância chegaria rápido e depois de umas injecções ele retornaria a ordem. Ele riu e disse-me que não tinha tanta certeza assim. O aspecto dele não era nada bom, mais estava consciente e conversávamos naturalmente, até que chegou a um ponto em que o Patricy manteve um silencio melancólico e ficou olhando para o nada durante algum tempo. Perguntei se ele sentia alguma coisa, dores, desconforto… e ele respondeu que não, não sentia nada, apenas o lado esquerdo sem movimento.

As pessoas todas paravam para saber o que se passava com o pintor e eu disse-lhes que era apenas um mal estar e a ambulância já estava chegando. Passado uns 15 minutos a ambulância entrou na rua direita e parou a nossa frente, desceram três rapazes carregando uma mala grande com material de socorro. Pediram espaço para o analisar melhor e de imediato pediu ao os outros dois que trouxessem a maca, ele deveria ser levado para o hospital para ser melhor assistido. Colocaram o Patricy na maca e o puseram na ambulância, antes do enfermeiro fechar a porta da ambulância o Patricy olhou para mim deu um ligeiro sorriso e fez um sinal de adeus.

O hospital era perto do local em que eu estava trabalhando, então pensei, já não tenho espírito para trabalhar depois disso, fechei o material e levei-os para casa, para depois ir ao hospital saber como estava o Patricy.

Quando cheguei ao hospital eles disseram que naquele momento não tinha ainda nenhuma noticia, que o Patricy ainda estava sendo observado e que eu voltasse depois.

Ok, eu pensei que talvez os excessos da noite anterior tivesse feito mal ao Patricy e isso resultou naquele mal estar e que amanhã já estaríamos de novo jogando sinuca no Barberine e tomando uns copos.

E a noite foi o que acabei de fazer fui para o Barberine ter com umas amigas e acabei ficando lá até muito tarde. Quando deixei o Barberine já era por volta da 3 da madrugada, cheguei em casa já com uma boa quantidade de álcool resultado das cervejas que havia bebido, lembrei-me do Patricy e pensei, amanhã pela manhã assim que acordar vou ter com ele no hospital.

Cheguei tão cansado ao apartamento que tombei de imediato na cama, já passado algumas horas viro-me para o lado e vejo o Patricy sentado na cama dele olhando para mim com aquela cara de tranquilidade que ele carregava e o ar de que não havia se passado nada, e eu sonolento disse para ele, porra já está de volta! E virei-me para o lado dominado pelo álcool e o sono. Pela manhã acordo com os gritos da senhora que entrou no meu quarto gritando que o meu amigo tinha morrido e que haviam ligado do hospital dando a noticia.

Eu disse, deve haver algum engano, eu vi o Patricy ontem a noite, e ela perguntou-me você o viu? Eu de imediato achei melhor não aprofundar a conversa e disse que tinha tido a impressão que o tinha visto e na realidade foi o que aconteceu.

Coloquei uma roupa e mim dirigi até ao hospital para ter noticias mais concretas sobre o que havia acontecido. Ao chegar ao hospital mim dirigi a sector de atendimento e dei o nome do patricy e pedi informações quanto ao estado dele. A senhora que estava no atendimento pediu licença e saiu para chamar o médico. Passado alguns minutos chegou uma doutora que perguntou-me qual era o meu grau de parentesco com o Patricy, disse-lhe que éramos apenas amigos que ele era francês e a família morava em Paris. Ela mim chamou a um canto e disse-me: Olha, lamento informar mais o seu amigo faleceu ontem a noite. Não mim recordo exactamente a causa da morte mais parece que foi resultado de uma espécie de acidente vascular cerebral.

Não sei exatamente que tipo de sentimento tive naquela hora, foi esquisito, muito esquisito. Como disse antes quando estive em visita ao Vaticano. Não sou nada religioso, não acredito em religiões, acredito apenas que o ser humano na sua busca desesperada de encontrar uma resposta para a sua existência, desde a origem das cavernas sempre procuraram criar religiões e Deuses para fugir ao medo e portanto para mim a religião não tinha significado algum a não ser desespero e medo.

Mais a sensação que fiquei com a morte do Patricy foi por incrível que pareça, de tranquilidade e paz. Sei que parece esquisito afinal eu e o Patricy éramos grandes amigos, ele era o maior amigo que eu tinha em Portugal, tínhamos passado por tantos momentos bons e maus tínhamos uma afinidade muito grande e eu havia aprendido tanto com ele, e agora eu estava com aquela sensação de paz e tranquilidade.

Mais eu sabia que havia uma forte razão para isso, como disse não tenho uma explicação lógica para isso, o que sei foi que naquela noite, na noite da morte do Patricy eu o vi sentado na cama dele a minha frente com aquele ar de tranquilidade que ele costumava carregar um ligeiro sorriso no rosto como se tivesse gozando com a situação, eu nunca vou mim esquecer daquele momento. Procuro Buscar evidentemente uma explicação lógica e cientifica para aquela situação, naquela noite eu havia bebido muito estava completamente bêbado e com toda aquela sonolência é normal que o cérebro entre em alucinações e fantasias e aquela cena do Patricy foi resultado disso, mais porque eu mim sentia tão tranquilo, tão bem, tão sereno? tanto é que depois que deixei o hospital apanhei o meu material e fui para rua trabalhar.

Braga. Portugal. A história de um imigrante brasileiro na Europa

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Cheguei na rua montei o meu material e comecei a trabalhar naturalmente. Lembro-me quando parou ao meu lado 3 senhores reformados que costumavam ficar na esplanada conversando e observando-nos a trabalhar e mim perguntou. O seu amigo está melhor? E eu respondi com a maior naturalidade. Não, faleceu ontem a noite. Um dos senhores se segurou no colega que estava ao lado e ficou simplesmente petrificado, ele que costumava ver o Patricy tão bem, animado e apresentando uma excelente saúde e depois recebe uma noticia daquela. E o outro exclamou, morreu? Mais como ele parecia está tão bem. Eu fiz um sinal com os ombros como se tivesse dizendo. Olha, é a vida! Os três senhores ficaram completamente espantado com a minha tranquilidade e devem ter pensado, aquele brasileiro é mesmo frio e insensível.

Mais uma coisa eu garanto a vocês, se não fosse aquela visão maluca que tive do Patricy naquela noite as coisas seriam bem mais diferentes, eu iria sentir muito a morte dele, não sou nenhum choramingão mais iria precisar de algum tempo para mim recompor, de forma nenhuma iria trabalhar no outro dia, impossível, as vezes só por um simples acontecimento como partir algum objecto que eu goste ou acontecer alguma coisa que não mim agradasse já seria motivo o suficiente para eu não fazer nada nesse dia, eu simplesmente perdia toda a inspiração, e no entanto naquela caso do Patricy, lá estava eu na rua trabalhando como se nada tivesse acontecido.

Cheguei no quarto e fui nas coisas do Patricy em busca do contacto da família dele em Paris para dar essa lastimável noticia. Acabei por encontrar o numero do telefone do irmão dele. Apanhei o número fui até a uma cabine telefónica e consegui falar com o irmão dele o qual acabou recebendo a noticia. Ele disse-me que iria descer para Portugal com a mãe e ao chegar a Braga entraria em contacto comigo.

Fui ao hospital e disse que a família estava vindo de França para cuidar do funeral e tudo que correspondesse ao acontecido.

Depois de uns 3 dias estava em casa quando recebo a ligação do irmão dele. Eles estavam em Braga e fui mim encontrar com eles. Quando vi a mãe do Patricy fiquei com muita pena dela, carregava nos olhos as dores de uma mãe que acabou de perder o seu filho, o irmão também notava-se a dor mais ele procurava manter o controle e transmitir um ar de dureza. Quando eu havia estado em França com o Patricy tinha conhecido a irmã e a mãe quanto ao irmão na altura não estava em França e acho também que a relação deles não era muito boa já que o Patricy nunca tinha falado dele. Abracei a mãe do Patricy e dei os meus pêsames.

 

Eles demoraram mais para chegar porque o irmão achou melhor fazer a viagem de carro para que ela pudesse durante a viagem ir se recompondo do choque e se tivessem vindo de avião seria mais difícil.

Procurei cuidar de toda a papelada referente a cremação do Patricy, que foi o mais indicado no caso e a família queria assim, levar para a França as cinzas do Patricy.

Estive com o irmão dele na câmara mortuária para nos despedirmos do Patricy, ele estava deitado nu em cima de uma cama de mármore, havia sido autopsiado e carregava uma grande costura em todo o tronco. Aquele que estava naquela mesa parecia com tudo menos com o Patricy.

Depois de tudo resolvido o irmão e a mãe sentiram-se muito gratos pelo o que eu havia feito no sentido de ajudar na papelada e resolução dos problemas referentes a cremação do Patricy, nos despedimos e seguiram viagem para França e disseram que se caso precisasse de alguma coisa deles deveria contactar de imediato já que a mãe sabia do quanto éramos amigos.

Depois de todos esses acontecimentos resolvi deixar Braga e fui para Coimbra.