Serra da estrela Portugal. PARTE 05

 

Mouraria, Lisboa. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Mouraria, Lisboa. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

PARTE 05

Resultado, aquilo era uma verdadeira republica desorganizada, onde segurança não havia nenhuma, as divisórias ou paredes dos ditos escritórios eram feitas de madeira, e saída só tinha uma que era a porta de entrada, aquilo era um verdadeiro buraco, se ocorresse um incêndio, ia ser uma tragédia total, a possibilidade disto ocorrer era grande, porque toda a rapaziada que morava nesses pseudos escritórios faziam comida lá dentro, ou seja, aquilo era uma verdadeira loucura, mais era extremamente divertido, morava lá gente de tudo que é parte do Brasil, eram mineiros, goianos, capixabas, baiano, carioca, imaginem uma turma dessa convivendo todos juntos, era uma doideira completa, fazíamos festa todos os dias. Me recordo de um dia juntarmos todos e resolvemos comprar todos os ingredientes necessário para fazer uma feijoada brasileira, compramos tudo, e muita cerveja para acompanhar, o responsável pela cozinha, o escolhido cozinheiro, era um goiano o qual chamávamos de hamburguinha, era uma peça incrível, eu ria com ele o tempo todo, era um jovem com os seus 19 a 20 anos com pouca cultura, vindo de uma área do interior do Brasil e tinha um senso de humor fantástico.

Deixamos o Hamburguinha preparando a feijoada e fomos todos para fora do prédio, porque lá dentro se tornava irrespirável  como não havia janelas se concentrava no corredor toda aquela fumaça. Tínhamos comprado para o Hamburguinha uma panela de pressão para que a coisa corressem lindamente, mais não ocorreu, enquanto ele cozinhava e ouvia as músicas típicas do interior de Goiánia no volume máximo, estávamos todos aguardando do lado de fora do prédio tomando a nossa cervejinha e batendo um papo, sentados na escadaria qual dava ao prédio, estávamos todos com uma fome danada, e reclamavam pelo fato da feijoada não esta pronta, e chegávamos o Hamburguinha o tempo todo. De repente ouvimos uma forte explosão e os gritos do Hamburguinha, largamos as garrafas de cervejas e corremos para o acudir, ou melhor, havia que não larga-se a cerveja de jeito nenhum e foi com ela bebendo. O hamburguinha só gritava “estou cego! estou cego! Entramos de imediato no quarto e a cena era impressionante, havia feijão e carne da feijoada por todo lado, tínhamos comprado a panela para o hamburguinha em uma loja dos chineses que tinha aberta recentemente na Mouraria, ou melhor, qualidade zero! e pelo visto a panela não aguentou o poderio da feijoada e explodiu. O hamburguina estava sentado no canto da parede gritando “tô cêgo! tô cêgo! e corremos para ajuda-lo, enquanto uns ajudavam o Hamburguinha outros comiam a carne que conseguiam encontrar pelo chão, cheguei ouvir comentários do tipo, que pena a feijoada estava mesmo boa, aquilo era de loucos. Estava preocupado com o hamburguinha, mais felizmente ele não sofreu nada, não estava cego como dizia, o que aconteceu é que tinha feijão por toda a cara, e com o susto que levou se transformou em uma criança, levamos o Hamburguinha para fora para que pudesse respirar, e depois de tudo está mais calmo e chegarmos a conclusão que ninguém se machucou, apenas ficamos sem a feijoada, a partir dai desse momento não fazíamos outra coisa a não ser rir do Hamburguinha, nunca mim diverti tanto, aquele período que passei morando na escadinha Marque Ponte de Lima mim marcou pela positiva, era sempre festa.

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Castelo de São Jorge. Lisboa. A ória de um imigrante brasileiro na Europa.

Castelo de São Jorge. Lisboa. A ória de um imigrante brasileiro na Europa.

 

Foi morar lá um rapaz também mineirinho que era o maior barato, o cara tinha um senso de humor inigualável, o nome dele era Fernando, uma personalidade fantástica, muito organizado e cuidadoso, chegou na companhia de um velho amigo dele chamado Ulisses, o que tinha o Fernando de ponderado tinha o Ulisses de irresponsável, eles eram como unha e carne, mais viviam o tempo todo brigando.

Formamos um grupo equilibrado e passamos a andar juntos nos metendo em algumas confusões e se divertindo muito.

 

Estava com um bom dinheiro e resolvi comprar um carro, uma “Carrinha” Furgão, era da marca Toyota, era usado, mais estava em perfeitas condições. O inverno havia chegado e resolvemos fazer uma viagem juntos a serra da estrela, para conhecermos pela primeira vez a neve, nunca tínhamos visto, já que no Brasil era impossível, portanto um ambiente desse para um brasileiro era uma verdadeira Disneylândia. Neve era o sonho de todos os brasileiros conhecerem. Eu tinha equipado a carrinha para usa-la como auto caravana como se diz aqui, ou sleep car, é um carro equipado com cama, um pequeno espaço onde se encontrava um fogão para cozinhar, ou seja uma casa improvisada que iria possibilitar fazer grandes viagens pela Europa, sem gastar dinheiro com pensões, e podia também fazer comida no carro já que estava todo equipado para isso, tinha até um aquecedor a gás para fugir ao frio do inverno, e era possível está dentro do carro sem sentir frio algum, e sem levar em conta que é um enorme perigo o uso desse tipo de equipamento em ambientes fechados, se houver uma diminuição muito grande de oxigénio em uma área fechada com um aquecedor ligado as pessoas podem morrer enquanto estão dormindo, sem se quê dá por isso, tivemos algumas pistas desta possibilidades e quase descobrimos isso na prática, contarei mais a frente.

Éramos 5 no total, eu o Fernando, Ulisses, Nildo e o Marcelo, esses dois últimos eram irmãos, também imigrantes vindo de Vitória do Espírito Santos, todos 2 excelentes rapazes e como o Fernando e o Ulisses trabalhavam também na construção civil, que era o trabalho da maioria dos brasileiros imigrantes.

 

Apanhamos a estrada em direcção a serra da estrela, a serra da estrela é a parte mais alta de Portugal, onde se encontra aldeias fantásticas, possui um queijo maravilhoso produzido com o leite de cabra, acompanhado de um bom vinho e um bom pão português, no caso a broa  é uma refeição fantástica. Por ser uma zona muito alta no inverno as temperaturas são baixíssima e toda a serra fica coberta de gelo, hoje há um estância de esqui muito bem equipada, em que vão muitos esquiadores praticar esse tipo de desporto, é um lugar muito bonito. A viajem foi extremamente divertida, eu ria demais com essa rapaziada, estávamos sempre na gozação. No caminho já próximo a serra da estrela paramos em um café para beber alguma coisa, e em conversa com um dos Portugueses, havia nos dito que era muito cedo e ainda não havia neve na serra, que este ano ela estava demorando a chegar, ficamos meio desanimados pelo fato dessa viagem ter com principal objetivo conhecer a neve, mais como já estávamos ali íamos seguir viagem, nos despedimos dos portugueses e seguimos o nosso caminho.

 

Começamos subir a serra era um frio de rachar mesmo dentro da carrinha, ao meu lado na frente do carro ia o Ulisse e o Marcelo, e atrás o Fernando e o Nildo, estávamos todos conversando quando de repente começamos a sentir um cheiro algo que esquisito, de alguma coisa queimando, de imediato entramos em alerta para descobrir o que se passava, afinal acabamos por descobrir, o Fernando era muito friento estava todo tempo reclamando do frio, assim como eu no inicio quando cheguei a Portugal. Portanto o responsável pôr aquele cheiro esquisito era nada mais nada menos do que o Fernando, que para fugir do frio, acendeu o fogão que tinha na carrinha e e estava procurando esquentar as mãos e o rosto na chama do fogão sem dar conta que os longos cabelos rastafári dele, estava próximo as chamas e estavam pegando fogo, ele estava com tanto frio que nem dava por isso, gritei com ele para apagar o fogão antes que acontecesse um acidente, aquilo é que foi rir, diante daquela situação o Fernando com fumaça saindo do cabelo e a tremer de frio, eu chorava de tanto rir, foram momentos para ficar na memória, tanto é que enquanto estou escrevendo esse livro chego até a sentir o cheiro do cabelo do Fernando pegando fogo. Foi uma aventura fantástica.

Quando começamos a subir a serra, nos deparamos com o primeiro sinal de neve, um manto branco ao lado da carrinha que nos fez descer de imediato e ir lá brincar com aquela pouca neve, fizemos alguma fotos depois retornamos ao carro já que o frio parecia ficar cada vez mais forte. Continuamos a subida, quando de repente a medida que subíamos ia aparecendo mais e mais neve, até que entramos em uma área que estava tudo branco e coberto de neve, afinal os Português do café em que paramos, estavam gozando com agente quando disse que era muito cedo e ainda não havia neve na serra, pois havia e muita.

Chegamos ao alto da serra onde fica a Torre, um local magnifico com vistas espetaculares havia muita gente, muitos carros era uma confusão enorme de pessoas transportando os seus equipamentos de esqui, as longas e pesadas botas, óculos, gorros na cabeça para fugir ao frio, do nosso lado crianças atiravam neve uma nos outra, coisa que não demorou muito para acontecer com agente, o Fernando levou com uma bola de neve na cabeça que foi disparada pelo Nildo que teve resposta imediata do Fernando, entrei na guerra e de repente parecíamos uma s crianças brincando, foi fantástico. A fome começou a bater e fomos a um restaurante que se encontrava na torre, além do restaurante havia muitas lojas vendendo de tudo que é de lembranças, muitos casacos de pele produzidos na serra, botas, luvas, cachecol toda a parafernália para se proteger do frio, muitas lojas vendendo queijos típicos da região, o queijo da serra tem uma característica amanteigado que eu adorava e que passou a ser praticamente o meu almoço.

 

Praca da Figueira Lisboa. A história de um imigrante brasileiro na Europa

Praca da Figueira Lisboa. A história de um imigrante brasileiro na Europa

Comprei uma garrafa de um bom vinho, queijo da serra e broa, depois de todos já fornecidos de comidas fomos para uma área aberta com uma paisagens cinematográfica fantástica, sentamos no chão, ou melhor, na neve e começamos a fazer um picnique, foi o melhor piquenique que já fiz na minha vida, sentado no meio daquela neve toda, saboreando um bom queijo da serra acompanhado de um bom vinho, era um paraíso.

 

Depois de almoçarmos fomos brincar na neve, parecíamos criança arrumamos um saco plástico preto e grande, sentávamos nele e com um pequeno movimento começávamos a descer aquela montanha escorregando sem nenhum controle já que não havia freios, como diz em Portugal “Travões” o resultado muitas vezes era uma grande queda no final, porque apanhávamos uma velocidade tal que na tentativa de parar ocorriam sempre grandes tombos, a cara do Fernando enfiada na neve com aquele cabelo rastafari, era um espetáculo, eu ria todo tempo, como disse antes parecíamos crianças no jardim infantil.

 

Levamos uma maquina fotográfica para documentar-mos tudo, evidentemente como bons turistas não deixávamos passar nada, o problema era na hora de fazer a foto, quem se candidatava, evidentemente nessa hora ninguém queria fazer o papel de fotografo, porque para isso era necessário tirar as luvas para fotografar por que eram muito grossas, e não havia sensibilidade para fazer uma foto em condições, e o frio era enorme e nesse meio tempo era possível sentir as mãos congelarem, portanto a técnica era, depois de estarem todos na posição exacta, ai o suicida fotografo retirava as luvas rapidamente e tirava a foto voltando imediatamente a pô-las. Para muitos que estão habituados a isso, não é nada, mais para nós, brasileiros criados em beira de praia, aquilo não era nada simples.

 

Depois de todas as maluquices, resolvemos ir para Covilhã, era a cidade mais próxima que havia, o nosso objectivo era comprar algo para nos proteger do frio, como disse, havia muitas coisas para comprar na torre, tudo que era necessário para se proteger do frio em curtir a neve, o problema é que tudo era muito caro por se tratar de uma área de um cariz turístico muito grande, portanto esperávamos na cidade mais próxima comprar algumas coisas e revelar algumas fotografia das nossas aventuras, todos estávamos muito curiosos em ver o resultado.

Chegamos a Covilhã, uma cidadezinha simpática e tão fria quanto a torre, deixamos as fotos para revelar em um laboratório, depois entramos em uma loja para comprar um carrinho para brincar na neve, parecíamos mesmo crianças, achávamos que o saco plástico improvisado para esquiar sentado não era o suficiente, então entramos em uma de comprar um carrinho apropriado para essas loucuras. O problema é que era muito caro e achamos que seria um desperdício, poderíamos nos contentar apenas com os sacos plásticos.

 

Já estava muito tarde e eu achava que não seria boa ideia irmos para a torre porque a temperatura estava baixando muito e a policia estava aconselhando a não subir, tornava-se perigoso irmos para lá naquela hora, a policia já alertava quanto a possível queda de temperatura mais o Fernando insistia em subirmos, pelo visto queríamos voltar a ser crianças de novo. Resultado, subimos a serra e fomos curtir mais uma vez as escorregadelas. Enquanto subíamos a serra os carros desciam, as pessoas olhavam para gente como se estivesse pensando, será que esse malucos sabem o que estão fazendo. Realmente não sabíamos, a vontade de curtir a neve não nos deixava medir as prováveis consequência de uma queda de temperatura. E foi o que ocorreu, começou a fazer um frio de lascar, quando o Fernando tremendo feito vara verde, olhou para mim e disse, Anildo é melhor pirar-mos daqui, isso tá ficando esquisito, e estava mesmo.

 

A temperatura além de baixar muito, uma neblina fortíssima tomou toda a área em que nos encontrava-mos, era impossível enxergar além de 5 metros e o vento fortíssimo piorava mais a situação, decidimos sair dali imediatamente. Ai surgiu uma boa novidade, a minha carrinha não funcionava, pelo visto os tubos de transmissão de combustível havia congelado, ou qualquer outra coisa, o que sei é que o carro não funcionava, e a bateria também já não ajudava nada, de tanto manter o sistema de arrefecimento ligado para aquecer o carro a bateria começou a dar sinal de que ia abaixo. Ok e agora?

 

Como estávamos em uma área muito alta imaginei que havia a hipótese de fazer a carrinha funcionar no tombo, ou seja, fazer descer a montanha, engatar uma 2º e tentar faze-la pegar. Mais antes de expor essa possibilidade, aproveitei para meter um susto na rapaziada. Assustei-os dizendo que deviam começar a rezar porque só teríamos algumas horas antes de entrar-mos em estado de hipotermia e depois disso teríamos uma morte lenta. Foi fantástico ver o desespero na cara deles, mais uma coisa é real, se não houvesse essa possibilidade de sairmos de lá, íamos ter sérios problemas.

 

A rapaziada ficou apavorada, o Nildo já queria tocar fogo em um lençol e por debaixo do motor para aquecer, disse que tinha visto isso em um filme, certeza que no outro dia sairia no jornal, carro de imigrantes brasileiros incendeia-se na serra da estrela, depois de curtir bastante com a situação, foi que apresentei a ideia de empurramos a carrinha até a pista principal onde se encontrava um grande declive e tentar fazer pegar no tombo. E foi o que procuramos fazer, mais afinal não foi tão simples assim, a carrinha pesava muito e cheguei a acreditar que não conseguiríamos, mais acho que o desespero deles era tanto que conseguiram ir buscar forças que nem sabiam que tinham, finalmente colocamos a carrinha na pista, mim enfiei nela, com o grande declive ela começou a andar e quando apanhou uma boa velocidade engatei a 2 macha e soltei a em breagem, ela deu varias engasgarde-las e afinal acabou por funcionar, foi uma festa se enfiaram dentro da carrinha e o Fernando gritou logo, “vamos embora daqui! Foi um espectáculo aquela situação que mim divertiu muito e ainda bem que correu tudo como esperávamos.

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Serra da Estrela. Portugal. A história de um brasileiro na Europa.

Serra da Estrela. Portugal. A história de um brasileiro na Europa.

Resolvemos passar a noite na aldeia da Covilhã para no outro dia retornar-mos a Lisboa, encontramos uma discoteca que foi montada em uma antiga fabrica, já não mim recordo de que, e o nome da discoteca era justamente “Fabrica” era um lugar bem original com uma decoração bem criativa, curtimos a noite toda nessa discoteca. Depois saímos muito tarde e fomos descansar um pouco, tirar uma soneca para recuperar a forma para o dia seguinte.

 

Eu tinha um aquecedor a gás na carrinha que possuía 5 níveis de temperatura, ou seja, no nível 2 já era o suficiente para aquecer a carrinha por completo, mais o frio era tanto que chegamos a colocar o nível máximo, numa total ignorância do risco que estávamos correndo, como no Brasil não se faz uso desse tipo de material, não estávamos muito bem informado quanto aos riscos. Éramos 5 dormindo dentro do furgão, havia um beliche do qual eu dormia na cama de cima, mais próximo ao tecto, e em baixo o Fernando, quanto ao Ulisses o Nildo e o Marcelo Dividiam um colchão que ficava no chã da carrinha. Agora imaginem 5 pessoas respirando o mesmo ar que era consumido pelo aquecedor, ou melhor, o aquecedor diminuía de forma violenta a quantidade de oxigénio do ar, e o que poderia ocorrer? era morrermos todos dormindo sem dar conta de nada.

 

Durante o inverno em Portugal e também na Europa, há muitas mortes resultantes de aquecedores pelo fato das pessoas usarem em locais fechado resultando no consumo do pouco oxigénio existente, levando a morte dessas pessoas durante o sono. O que é que nos salvou? Durante a noite quando estávamos dormindo de repente acordávamos com um frio enorme tomando conta da carrinha, e ai reparávamos que o aquecedor tinha desligado, e derivado a muita ignorância de nossa parte, íamos lá e ligávamos de novo, passado um tempo ele voltava a desligar, chegamos ao ponto de revezar para ver quem ia ligar, porque só o fato de sair de debaixo dos cobertores já custava muito, e o Fernando sempre dizia, ver se joga essa porcaria fora e compra um aquecedor melhor!

Eu não entendia porque ele desligava constantemente, lembro-me que quando chegou a minha vez de ir ligar, como eu estava na parte mais alta da carrinha, estava mais sujeito ao ar quente e ao pouco oxigénio existente no ar, e eu sentia um cansaço enorme quando tentava mim levantar para ir liga-lo, sentia um cansaço muito esquisito que eu atribuía a viagem, ao frio, e a bebedeira na discoteca. O que nos salvou, só depois passado muito tempo é que cheguei a essa conclusão, foi um sistema de segurança que havia no aquecedor, que quando a atmosfera se tornava irrespirável  esse sistema de segurança era activado automaticamente, se não fosse isso, morreríamos todos dormindo dentro daquela carrinha, durante esse processo não é possível perceber a ponto de acordar, porque os sintomas de cansaço que apanha a vitima e a escassez de oxigénio faz a pessoa entrar em um sono profundo nunca mais acordando. Resumindo, fomos salvo graças aquele sistema de segurança.

Depois dessa aventura voltamos para Lisboa trazendo boas lembranças da serra e muitas histórias para contar.

 

Voltei para a Praça da Figueira e encontrei-me com o Patricy, ele tinha andado fora, disse-me que tinha ido a Paris ver a mãe, não sei ao certo se foi verdade, mais também não mim importava, fomos tomar um copo para por a conversa em dia e contei-lhe da experiência com os brasileiros na serra da estrela.

 

Ok, meu objectivo era conhecer a Europa e achei que já estava na hora, tinha ganho algum dinheiro e resolvi conhecer a Espanha já que estava tão próximo.

 

Optei por Madrid, mais não queria ir com a minha carrinha, não nessa viagem, depois da ida a serra ela estava muito estranha e não tinha tanta segurança, acreditava que a minha bichinha podia acabar ficando na estrada e também não queria gastar dinheiro com ela fazendo a revisão necessária nessa altura, estava doido para ir até Madrid, conhecer a Guernica de Picasso que se encontrava no Museu do Prado e ter as minhas primeiras impressões de outro país europeu.

Em Portugal e Europa viajar de comboio é sempre mais barato e divertido porque atravessamos zonas bucólicas, atravessamos pequenas cidades e temos a possibilidade de curtir mais a natureza, enquanto de Ónibus, ficávamos restringidos a paisagem das auto estradas que se resumia a muito asfalto pela frente, e a paisagem parecia ser sempre a mesma. Então comprei uma passagem para Madrid e mim enfiei no comboio. Era confortável e interessante, varias cabines das quais as poltronas transformavam-se em cama sendo possível fazer dias de viagem dentro de um certo conforto. A ida para Madrid não era tão demorada, tínhamos apenas cerca de 700 quilometro pela frente e aquilo se fazia bem.

 

E lá estava eu em Madrid, a cidade era muito bonita, os Madrilenos não pareciam ser muito simpáticos, talvez pela grande quantidade de imigrantes latino americanos que estavam invadindo a cidade, embora depois de conhecer outras cidades como Barcelona e todo litoral espanhol descobri que afinal os espanhóis são povos alegre, brincalhões e aventureiros, principalmente as espanholas, eu mim apaixonava a cada esquina.

 

Entrei em uma agência de turismo e consegui um mapa da cidade que era distribuído gratuitamente. Fui directo para o Museu do Prado, considerado um dos museus mais importantes da Europa, com uma das melhores colecções de arte do mundo, obras de El Greco, Velásquez, Goya, pintores holandeses como Rubens, Van dick, italianos como Botticelli em vários outros pintores que de momento não me recordo.

 

Durante a guerra peninsular serviu de quartel para a cavalaria do exercito de Napoleão, o local era histórico e eu estava curioso para ver de perto o quadro de Pablo Picasso “Guenica” que foi pintado como forma de repugnância ao bombardeamento nazista em 1937 durante a guerra civil espanhola.

Lembro-me de uma historia em que um oficial nazista perguntou ao Picasso, foi você que fez isso? E o Picasso respondeu, não quem fez foram vocês, eu apenas o pintei! Era uma obra fantástica, levei horas analisando-a e tentando captar ao máximo de informação que a obra continha, o terror e a estupidez humana. Confesso que aquele momento valeu por tudo que eu tinha passado até ali, aquelas obras, aquela magia e atmosfera me fazia delirar em um mundo que se tentasse explicar não seria possível com palavras e nem textos, o que sei é que valeu muito a pena. Agora imaginem quando eu visitar o Louvre em Paris, acho que vou precisar me prepara bastante mentalmente para esse choque, sei que tudo isso pode parecer uma estupidez para vocês, mais para quem gosta de arte como eu e como muitos outros, isso representa uma das coisas mais importantes do mundo, não há dinheiro, não há fama, não há nada que possa substituir ou até mesmo comprar esse tipo de sentimento, acho melhor eu parar por aqui, como dizem os portugueses, “estou me esticando muito,”

 

passei boas hora lá dentro admirando outras obras, saindo de lá mim desloquei em direcção a gran via uma zona muito movimentada, central em que se ver de tudo, e eu estava a procura dos artistas de rua para ver se começava a trabalhar lá, e quem sabe não voltar tão cedo a Portugal. Depois de usar o meu espanhol fajuto conversando com um artista que tocava harmónica em uma esquina, fiquei sabendo que na Plaza Maior, uma grande praça, consideradas uma das mais importantes praças de Madrid onde iria encontrar alguns artistas. Me dirigi para lá e realmente havia muitos artistas trabalhando lá.

 

Mais para conseguir trabalhar naquele espaço não era tão simples, era necessário licença para trabalhar na Praça e não adiantava usar o velho sistema da rua Augusta, começar a trabalhar e contar com a demora da policia e nesse meio tempo procurar ganhar dinheiro, não era possível porque os próprios artistas que possuíam licença com receio da concorrência  era quem chamava a policia, portanto não se conseguia ficar muito tempo. Estava anoitecendo e fui em busca de uma pensão para passar a noite, acabei por encontrar uma e bem cara, já que o nível de vida em Espanha era maior que em Portugal, portanto era tudo mais caro.

 

No outro dia acordei e fui continuar com os meus passeios turísticos, a grana estava curta por isso sabia que não podia ficar muito tempo, e quanto a hipótese de trabalhar, não poderia me dar esse luxo por enquanto, cheguei a conclusão que para tentar teria que planear tudo primeiro, como por exemplo, pintar paisagem e temas relativos a Espanha, não poderia ir vender lá imagens de ruas Portuguesas nem temas portugueses. Portanto comecei a fazer muitas fotos de áreas turísticas, para na próxima vez que retornar, já chegava com material para vender, e como a grana estava curta não poderia me dar o luxo de gastar dinheiro durante o tempo de preparação do material. “Lisboa tô voltando.”

De volta a Portugal fui para a rua Augusta e estive com o Patricy contei tudo sobre a minha visita a Madrid e como fiquei completamente maluco pelo Museu do Prado. Senti que o Patricy por questão de nacionalismo e de certa forma estava muito certo no que estava falando, fez questão de procurar minimizar a importância do Museu do Prado e colocar no nível superior o Museu do seu país, ou seja, o Louvre. Evidente que o Louvre é uma verdadeira explosão de arte e historia e seria a minha próxima parada.

 

Voltei a rotina do trabalho, como disse antes e volto a repetir, nessa área não existe rotina é só maneira de falar. Comecei a desenvolver mais ainda as aquarelas e cada vez fazia mais dinheiro, rápido e mais fácil. O problema do ganhar dinheiro fácil é que praticamente entramos também em um gastar fácil, criamos vícios de consumo que só o dinheiro fácil pode criar, gastava muito, mais acho que essa era a forma de compensar o fato de está longe do meu país, de está vivendo em um ambiente muito pesado, as vezes encontrava nesse meio verdadeiros artistas, pessoas que realmente gostavam da arte, e trabalhavam por paixão e não para suprir necessidades estúpidas de vícios e drogas. Mais infelizmente essas mesmas pessoas desapareciam, não ficava muito tempo na rua, as vezes era a necessidade de sobrevivência de fazer parte desse sistema social capitalista, o qual obriga o cidadão a trabalhar com o simples objectivo financeiro e não humano, e que acaba por fazer muitos desses grandes artistas que não conseguem sobreviver do seu trabalho por esse não ser tão comercial, no final se ver obrigado a exercer uma profissão da qual não lhe diz nada, e muitas vezes pelo fato de ter caído na grande besteira de formar uma família sem ter capacidades financeiras para isso, acaba por não encontrar outra saída a não ser entrar nessa vida miserável de trabalhar 8, 10, 12 horas por dia para pagar dividas que nunca acabam, e passam a ser um escravo do sistema. É uma grande pena

Depois da minha ida ao Prado e ter feito tantos elogios ao museu, acabei por criar no patricy uma necessidade grande de mim apresentar o Louvre, eu estava sempre picando ele para que não queimasse tanto dinheiro com luxos desnecessários, e que juntasse dinheiro para irmos até Paris. Ele dizia que sim ia começar a juntar algum dinheiro, o detalhe é que também não era necessário tanto, já como ele tinha família em Paris já facilitava bastante nas despesas. Bem o que sei é que passado um tempo eu comecei a dizer a mim mesmo, a qualquer momento quando entrar um dinheirinho a mais corro directo para estação de comboio (Trem) e vou sozinho para França, não falo francês mais que se dane, vou usar o meu “IGRESS” fajuto mais já dava para dizer boas frases. Portanto, “França me aguarde”.

 

Deixa-me contar uma pequena situação mais muito curiosa que ocorre no meio dos imigrantes, principalmente brasileiros. Vocês sabem da necessidade de comunicação que temos para com as nossas famílias, e as vezes chegamos a gastar muito dinheiro com ligações telefónicas, naquela altura os telefones públicos possuía um sistema de colocação de moedas diferentes dos de hoje. Vou apresentar para vocês algumas das mais variadas técnicas que os brasileiros usavam para fazer ligações gratuitas para o Brasil, ou quase gratuitas. Descobriram um desenho técnico de um telefone público, ou seja, tinha acesso através do desenho, ao funcionamento interno do mesmo e sabiam que ao colocar a moeda de 50 escudos, naquela altura eram os escudos como eu tinha dito antes, ao coloca-la para efectuar uma ligação para o Brasil o tempo que essa moeda permitia de ligação era curta, portanto aqueles antigos telefones públicos tinham um sistema tipo cascata da qual colocávamos varias moedas e a medida que o tempo de uma se esgotava, automaticamente um dispositivo semelhante a um gancho que possuía no interior, largava a moeda para dentro da caixa do telefone, retornando de imediato a sua posição inicial recebendo outra moeda.

Solução, a rapaziada colocava super bond, essas colas super forte, em torno da moeda e fazia uma ligação para Portugal, como durava mais tempo a moeda acabava por colar no gancho que tinha o trabalho de solta-la para dentro da caixa assim que terminasse o tempo permitido, só que ao acabar o tempo, a moeda permanecia sempre no mesmo lugar deixando a ligação sempre em aberto. Ou seja, passado um tempo as companhias tiveram que criar outra forma de funcionamento por que acabava por ter muitos telefones avariados.

 

Fora esse esquema descobriam também forma de fazer a ligação grátis usando o que na altura era uma ligação gratuita tipo 112, ligavam para policia por exemplo utilizando uma linha gratuita durante a comunicação premia determinada tecla e clicava um código que acabava por deixar a linha telefónica livre para efectuar ligações para todo lado sem pagar nada.

 

isso era uma verdadeira epidemia, os portugueses não entendiam o porque que as vezes haviam 4 telefones públicos lado a lado um do outro, e havia uma fila enorme de brasileiros para utilizar apenas 1, e os outro 3 sem ninguém, completamente livres. Alguns portugueses achavam que esses 3 telefones estivessem avariados e as vezes se metiam na fila, quando descobriam que afinal os telefones funcionavam, não entendiam porque os brasileiros só queriam aquele. Nos dizíamos que esse telefone era made in Brasil por isso gostávamos dele.

 

Havia também técnicas mais profissionais do tipo comprar nos chineses telefones baratos, colocar na ponta dos fios o que chamamos de jacaré, são pequenas molas para fazer contacto e procuravam fios de telefones públicos em zonas afastadas, depois era só colocar os jacaré em contacto com o cobre dos fios e lá estava uma linha directa, assim como se ver nos filmes. Vida de imigrante não é fácil!

Bem já esperei demais que o Patricy junte algum dinheiro para irmos a Paris, eu vou arrancar é já, se não a Europa entra em guerra, explodem o Louvre e eu acabo sem conhece-lo, eheeh. França ai vou eu!!

Apanhei uma mochila, joguei umas 2 mudas de roupa e arranquei para estação de comboio. Estava bem excitado já que seria a 1º vez que eu iria a um país de língua estrangeira, ia ser uma experiência interessante, comprei um dicionariozinho inglês português, enfiei no bolso e disse para mim mesmo, vou ensinar essa gente a falar INGRÉS.

Iria ser uma viagem bem longa, cerca de 23 horas de comboio, ia ser uma verdadeira surra, portanto preparei o meu equipamento de guerra, leitor de cassete, muitas cassetes, alguns de vocês devem está se perguntando o que são essas cassetes, naquela época não havia os mp3 e se havia não me recordo, portanto as fitas cassete era o ultimo grito da tecnologia.

O Radinho fM com head fones para ir acompanhando as entradas de locutores internacionais a medida que íamos entrando em outro país, atenção naquela época a CCE não estava unificada, ou seja, quando nós chegava-mos em Espanha tínhamos que aturar com a policia alfandegaria exigindo documentos e o maior controle policial, sem contar os cães da policia alfandegaria que vinham nos cheirar tentando detectar drogas. A entrada em França pior ainda, eles eram muito exigentes com relação ao visto de entrada, com os brasileiro não havia problemas devida a relação Brasil e França que eram boas, mais os outros imigrantes, tipos Angolanos, africanos, esse tinham sérios problemas, de qualquer maneira eu sempre tinha uma relação um pouco conflituosa com os franceses, naquela época havia muitos atentados terroristas em França, me recordo que quando estive lá ouve uma explosão no metro de Saint. Germain, e a policia andava em alerta, o problema é que quando colocavam os olhos em mim, eu tinha certeza que ia ser abordado, porque tudo indicava que eu tenho a aparência de árabes e com os meus 1.90 e uma cara nada simpática, levantava de imediato suspeita. Quando deixamos a fronteira espanhola e entramos na França, já era de madrugada e mais uma vez, cães e policiais invadem os vagões recolhendo passaporte de todo mundo, para confirmar o visto de entrada.

Esqueci de contar a vocês o que ocorreu comigo quando estava na gran via em Madrid. Na gran via se encontra assim como em Lisboa, muitos vendedores de droga abordando os jovens com a tentativa de vender drogas, eu estava caminhando pela rua, estava com uma fome danada, procurando a mac donald e eu tenho um sério problema, quando estou com fome ou com sono, fico irritadiço, não consigo entender mais perco todo o meu humor e não consigo aturar ninguém. Pois ia a procura do MaC quando de repente um cara tipo o policialzinho da rua Augusta que queria mim prender, parou na minha frente e disse alguma coisa, já há minutos antes eu tinha sido abordado por um cigano querendo mim vender Haxixe e de repente mim aparece uma outra figurinha de 1 metro e meio mim chateando, e eu com a maior fome, foi extintivo, empurrei ele par o lado e continuei a minha caminhada, de repente sou cercado por 5 homens com o ar ameaçador só depois que fui perceber que se tratava de policiais e o “meia dose” que tentou mim parar só queria ver os meus documentos e eu pensei que ele queria mim vender drogas, a minha sorte é que um dos policias, o mais esperto julgo eu, percebeu que eu não estava entendendo o que estava se passando e mim mostrou o distintivo de policia, ok, parei e os outro se acalmaram mais e o equivoco foi resolvido. Enfiei a mão no bolso para retirar o passaporte, mais procurei fazer devagar porque pelo visto alguns deles não estava bem convencido.

Naquela altura também na Espanha havia sérios problemas com os atentados terroristas realizados pela ETA, e como disse antes, o meu ar meio árabe não ajudava em nada.

Madri. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

Madri. A história de um imigrante brasileiro na Europa.

 

Bem, depois dos policiais espanhóis vistoriarem o meu passaporte e ver que eu era brasileiro de passagem, foi muito gentil e educado, pediu desculpas e mim desejou uma boa viagem, e lá fui eu atrás do Macdonalds.